Esqueleto de mulher estava sepultado num monte de conchas
Um grupo de arqueológos achou no concelho de Alcácer do Sal um esqueleto
de uma mulher com cerca de oito mil anos. O esqueleto estava num monte de conchas perto do rio
Sado, deixadas lá pelos últimos caçadores-recolectores em território português.
Não muito longe dali, tinha-se já encontrado um cão com 7600 anos, o cão mais
velho descoberto na Europa.
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Equipa de arqueológicos acham esqueleto de mulher com 8 mil anos |
Segundo os relatos da equipa que achou o esqueleto, colocaram-na cuidadosamente de costas,
com os braços sobre a barriga e as pernas bastante flectidas, e assim ficou em
repouso durante cerca de oito mil anos. Agora, a equipa que trabalha no sítio
arqueológico de Poças de São Bento, em Alcácer do Sal, começou por se deparar
com um pedaço do crânio que ficou à mostra durante as escavações. Era um
fragmento do esqueleto de uma mulher que pertenceu aos últimos
caçadores-recolectores em território português.
Anunciada esta
quinta-feira, a descoberta é da equipa de Mariana Diniz, da Universidade de
Lisboa, e Pablo Arias, da Universidade da Cantábria (Espanha), coordenadores do
projecto Sado-Meso, que se centra nos concheiros do estuário do Sado.
O concheiro de Poças de São Bento é um
desses amontoados de conchas deixados pelos últimos caçadores-recolectores, no
Mesolítico, quando as sociedades agropastoris estavam já a emergir no
território agora português. E as conchas eram restos da alimentação que os
caçadores-recolectores retiravam do Sado, como berbigão, amêijoas, douradas e
robalos.
Descoberta ajuda a revelar história desta tribo
No concheiro de Poças de São Bento já
se encontraram outros esqueletos humanos, noutras escavações, por exemplo na
década de 1950. Qual é então a importância agora desta mulher? “É [o esqueleto]
mais bem preservado em Poças de São Bento. Podemos observar sua posição. Há um
ritual de deposição do corpo com alguma elaboração”, responde Mariana Diniz.
“Espólio e oferendas, não há nada. Estes caçadores aparentemente não se faziam
acompanhar [por esses objectos]”, acrescenta a arqueóloga. “A partir deste
esqueleto vamos poder fazer uma série de análises laboratoriais, como análises
de ADN e datações, porque temos a amostra controlada”, refere ainda Mariana
Diniz, explicando que os achados arqueológicos antigos do local têm o problema
de não se saber exactamente de onde vêm.
“Esta descoberta permitirá obter
informação detalhada acerca do comportamento funerário destes grupos, das suas
actividades rituais”, adianta por sua vez um comunicado da Universidade de
Lisboa.
Achado esqueleto do cão mais velho da Europa
Este mesmo concheiro já tinha dado uma
prenda aos investigadores do projecto Sado-Meso em 2011: encontraram o
esqueleto de um cão, o Piloto,
que datações por radiocarbono, realizadas na Universidade de Oxford, Reino
Unido, confirmaram que tinha 7600 anos. Claramente documentada numa escavação,
é a sepultura de um cão mais antiga do Sul da Europa. Este cão mesolítico,
sublinhou na altura a equipa, é importante para compreender o universo mental
destes grupos de caçadores-recolectores.
Mulher e cão partilharam assim o mesmo
concheiro na hora da morte. “Mas não podemos dizer que é ela era a dona do
cão”, diz a arqueóloga, trazendo-nos de volta à realidade mais objectiva da
ciência. “Estão no mesmo concheiro, mas aparentemente, pelos dados que temos
agora, a zona da necrópole humana e o cão estão separados 10 a 15 metros. Temos
a necrópole humana mais a nascente e o cão está no limite poente do concheiro.”
Embora ainda sem datações, o esqueleto
da mulher parece ser um pouco mais antigo que o do cão, uma vez que ela
encontra nas areias de base do concheiro. “Em pré-história, um pouco mais
antigo pode ser 300 ou 400 anos...”
Agência de Notícias
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